O Dia do Repórter Fotográfico é celebrado em 2 de setembro no Brasil e homenageia profissionais que transformam acontecimentos em registros visuais capazes de preservar a memória de uma sociedade. A fotografia jornalística mudou radicalmente desde os primeiros experimentos do século 19, mas manteve uma característica essencial: registrar aquilo que está acontecendo diante das lentes.
A origem exata da escolha de 2 de setembro como Dia do Repórter Fotográfico, porém, não está claramente documentada nas fontes históricas consultadas. A data é reconhecida e celebrada por instituições públicas, como o Senado e o Arquivo Nacional, mas não foi localizado um ato oficial que explique quando ou por quem a efeméride foi criada.
O que está bem documentado é a trajetória da profissão.
Das guerras aos jornais
Um dos nomes fundamentais dessa história é o britânico Roger Fenton. Ele foi nomeado fotógrafo oficial da Guerra da Crimeia em 1854 e chegou ao conflito em 1855. Suas imagens estão entre as primeiras tentativas sistemáticas de documentar uma guerra por meio da fotografia.
A tecnologia ainda impunha enormes limitações. Fenton precisava transportar uma estrutura que funcionava como laboratório móvel para preparar e revelar suas placas fotográficas. As imagens também não registravam cenas de combate propriamente ditas, mas soldados, acampamentos, paisagens e os efeitos do conflito.
A fotografia também começava a conquistar espaço nos jornais. A Library of Congress registra que a primeira fotografia reproduzida mecanicamente em um jornal americano apareceu no Daily Graphic, de Nova York, em 4 de março de 1880.
Antes mesmo disso, o Brasil já possuía experiências pioneiras. Em 20 de julho de 1878, a revista O Besouro publicou duas fotografias de vítimas da seca de 1877-1878, no Ceará. As imagens, feitas pelo fotógrafo Joaquim Antônio Correia, foram enviadas por José do Patrocínio e utilizadas como parte de uma denúncia sobre a tragédia. A Brasiliana Fotográfica considera o episódio um marco da utilização da fotografia como documento jornalístico no país.
A fotografia ficou mais acessível
A evolução técnica mudou o trabalho dos fotógrafos. Em 1888, George Eastman lançou a câmera Kodak Original, equipada com filme em rolo para 100 exposições e concebida para ser carregada e operada com facilidade. A tecnologia ajudou a tornar a fotografia mais acessível a um público muito maior.
Mais tarde vieram câmeras mais rápidas, filmes mais sensíveis, equipamentos digitais e, finalmente, os celulares. O fotojornalismo acompanhou cada etapa dessa transformação sem abandonar sua principal função: produzir imagens que acrescentem informação e contexto à notícia.
Uma profissão de risco
O avanço tecnológico, porém, não eliminou os riscos do trabalho. Em muitas situações, o fotógrafo precisa estar justamente onde outras pessoas estão tentando sair.
O fotojornalista Severino Silva recorda um episódio de tiroteio na Linha Vermelha, no Rio de Janeiro. Enquanto pessoas procuravam abrigo, ele permaneceu em posição para registrar a cena.
“Desde aquele dia, não ando mais sem equipamento. Posso até não tirar a foto, mas não vai ser por falta da máquina”, relatou.
Em zonas de conflito, o perigo pode ser ainda maior. Durante a guerra em Gaza, organizações de imprensa passaram a registrar uma quantidade excepcional de mortes entre jornalistas e trabalhadores de mídia. Em julho de 2026, o Sindicato dos Jornalistas Palestinos contabilizava 264 mortos desde outubro de 2023. O Comitê para a Proteção dos Jornalistas, que utiliza critérios próprios de verificação, registrava 209 jornalistas e trabalhadores de mídia mortos por Israel em Gaza e centros de detenção até junho de 2026.
A fotógrafa Ana Carolina Fernandes resumiu o impacto desse risco ao falar sobre a cobertura de Gaza: “A imprensa não era para ser alvo”. Segundo ela, profissionais locais trabalham em condições extremas e convivem diariamente com a possibilidade de não voltar para casa.
Mulheres, ética e o olhar por trás da câmera
O mercado também passou por mudanças na presença feminina. A fotógrafa esportiva Lívia Villas-Boas conta que enfrentou resistência em um ambiente dominado por homens.
“Eu, como mulher, sempre fui a última a ser escolhida”, afirmou. A experiência contribuiu para que ela fundasse, em 2021, a Staff Images Woman, agência formada exclusivamente por fotógrafas e voltada à produção de imagens no futebol feminino.
Para Lívia, a representação das atletas também passa pelo cuidado com o enquadramento e pela forma como seus corpos são apresentados. A discussão mostra que o fotojornalismo não envolve apenas técnica: envolve escolhas, contexto e responsabilidade.
Esse princípio aparece também no trabalho de Marco Terranova, vencedor do Prêmio Esso de Fotografia de 1999 com “Domingo de Pavor”. Ao desenvolver o projeto “Santa Marta dos Anjos”, sobre moradores do Morro Santa Marta, no Rio de Janeiro, Terranova passou a destacar a relação de confiança entre fotógrafo e personagem.
“O nosso trabalho é conseguir obter o respeito das pessoas”, afirma.
O desafio da inteligência artificial
A mais recente transformação chegou com a inteligência artificial. Ferramentas capazes de alterar, ampliar ou reconstruir imagens oferecem novas possibilidades para os profissionais, mas também levantam uma questão central: até onde vai a edição e onde começa a falsificação de um acontecimento?
A própria Lívia resume o dilema ao defender que a tecnologia pode ajudar na edição, mas não deve alterar aquilo que a fotografia pretende documentar.
Essa discussão recoloca um princípio antigo no centro do debate. Uma fotografia jornalística não vale apenas por ser tecnicamente bonita. Ela vale porque ajuda o público a entender um fato, preserva uma memória e mantém compromisso com a realidade registrada.
Do laboratório improvisado de Roger Fenton às câmeras digitais e ferramentas de inteligência artificial, o equipamento mudou quase completamente. O papel do repórter fotográfico, não: observar, escolher o momento e registrar aquilo que talvez, sem aquela imagem, fosse esquecido.


