O presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou a agenda econômica do senador Flávio Bolsonaro em uma publicação nas redes sociais. No vídeo, Lula afirmou que o adversário pretende levar ao Brasil o modelo do presidente argentino Javier Milei e associou as medidas adotadas no país vizinho à redução de direitos trabalhistas e a dificuldades enfrentadas por aposentados.
“Flávio Bolsonaro quer importar para o Brasil o modelo de Milei. Lá, isso significou menos direitos, jornadas de trabalho de até 12 horas, desemprego e pobreza nos maiores níveis e aposentados prejudicados. É esse o futuro que ele quer para o trabalhador brasileiro?”, questionou Lula.
A declaração ocorre durante a disputa eleitoral de 2026 e retoma um tema presente no debate econômico brasileiro: o alcance da desregulamentação, as regras de contratação e os efeitos das mudanças trabalhistas sobre os empregados.
O que mudou na legislação trabalhista argentina?
A Argentina aprovou em 2026 a Lei de Modernização Laboral, que alterou diferentes pontos da legislação do trabalho. Entre as mudanças estão mecanismos de compensação de horas, regras mais flexíveis para a organização da jornada e alterações nos critérios de cálculo de indenizações por demissão.
A nova legislação permite, em determinadas condições, a adoção de jornadas diárias que podem chegar a 12 horas, respeitado o descanso mínimo previsto nas regras aplicáveis. Também criou mecanismos de banco de horas, que permitem compensar períodos trabalhados a mais com períodos de descanso, conforme os acordos e limites legais.
As alterações foram defendidas pelo governo argentino como medidas de modernização e incentivo à formalização do emprego. Críticos, por outro lado, apontam riscos de enfraquecimento das proteções trabalhistas e de maior flexibilidade em benefício dos empregadores.
A coordenadora econômica da campanha de Flávio Bolsonaro, Daniella Marques, afirmou em setembro que um eventual governo do senador se inspiraria em Milei para promover a desburocratização e revogar mais de mil normas. A declaração indica uma aproximação com a agenda de desregulamentação argentina, mas não significa, por si só, que a campanha tenha anunciado a adoção de todas as medidas da reforma trabalhista do país vizinho.
O que dizem os dados sobre pobreza e desemprego?
No vídeo, Lula também associa o modelo argentino a níveis elevados de pobreza e desemprego. Os indicadores oficiais ajudam a contextualizar a afirmação.
O Instituto Nacional de Estatística e Censos da Argentina (Indec) registrou que 32,3% da população estava abaixo da linha de pobreza no primeiro semestre de 2026. O percentual subiu 4,1 pontos percentuais em relação ao segundo semestre de 2025, quando havia sido de 28,2%.
O indicador, no entanto, ficou abaixo dos 52,9% registrados no primeiro semestre de 2024. Portanto, embora a pobreza tenha voltado a crescer em 2026, o dado mais recente não corresponde ao maior percentual desse período de comparação.
Na área do emprego, a taxa de desocupação chegou a 7,9% no segundo trimestre de 2026, segundo o Indec. O número deve ser considerado com seu período de referência e não basta, isoladamente, para comprovar que o desemprego está em seu maior nível histórico.
O vídeo também relaciona a insuficiência salarial ao cumprimento de jornadas superiores a 45 horas semanais. Para confirmar o percentual de trabalhadores mencionado nesse contexto, porém, é necessário identificar a pesquisa utilizada, sua metodologia e o período a que os dados se referem.
Vídeo relembra vetos e alimentos armazenados
A publicação de Lula também retoma episódios anteriores do governo argentino.
Um deles envolve medidas de reajuste das aposentadorias e de ampliação da proteção às pessoas com deficiência, aprovadas pelo Congresso argentino em 2025 e vetadas por Milei naquele ano. Os vetos foram justificados pelo presidente argentino com o argumento de que as medidas contrariavam a política de equilíbrio fiscal defendida por seu governo.
O vídeo ainda menciona a controvérsia sobre alimentos armazenados em depósitos públicos e próximos do vencimento. O caso veio a público em maio de 2024, quando o Ministério de Capital Humano da Argentina anunciou medidas para distribuir rapidamente os produtos e evitar que perdessem a validade.
Esses episódios ajudam a compreender as críticas feitas por Lula à política econômica e social de Milei, mas pertencem a momentos diferentes do governo argentino e não devem ser apresentados como acontecimentos recentes.
A discussão sobre o modelo argentino também permanece no campo eleitoral brasileiro. Ao comparar as propostas de Flávio Bolsonaro com as medidas adotadas por Milei, Lula procura associar a agenda de desregulamentação a possíveis consequências para os trabalhadores. A avaliação sobre esses efeitos, contudo, deve ser distinguida dos dados econômicos e do conteúdo efetivo da legislação.
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