O 23 de agosto carrega uma história que começou mais de dois séculos antes de a data entrar no calendário da UNESCO. Na noite de 22 para 23 de agosto de 1791, pessoas submetidas à escravidão iniciaram uma grande insurreição em Saint-Domingue, então colônia francesa no Caribe e hoje território do Haiti.
A revolta tornou-se um dos acontecimentos decisivos da Revolução Haitiana e teve papel importante no processo que levou à abolição do tráfico transatlântico de pessoas escravizadas e ao fim do sistema escravista naquela parte da ilha. Em 1804, o Haiti declarou sua independência.
É por isso que o dia 23 de agosto foi escolhido para lembrar, todos os anos, a história do tráfico de escravizados, suas vítimas e as lutas de resistência contra esse sistema. A UNESCO afirma que a data também deve estimular a reflexão sobre as causas, os métodos e as consequências desse processo histórico.
Por que a UNESCO escolheu 23 de agosto?
A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, a UNESCO, proclamou o Dia Internacional da Lembrança do Tráfico de Escravos e sua Abolição em 1997, durante a 29ª sessão de sua Conferência Geral.
A escolha da data foi uma forma de reconhecer a importância histórica da insurreição de 1791. Em documentos posteriores, a própria UNESCO registra o levante de Saint-Domingue como o acontecimento que deu origem à escolha do dia 23 de agosto.
As primeiras comemorações aconteceram no Haiti, em 1998, e na Ilha de Gorée, no Senegal, em 1999. A organização passou a incentivar atividades que envolvessem comunidades, estudantes, educadores, artistas e pesquisadores para ampliar o conhecimento sobre essa história.
A data também está ligada ao programa Rotas dos Povos Escravizados, criado pela UNESCO em 1994 para ampliar o conhecimento sobre o tráfico transatlântico, a escravidão, os atos de resistência e os impactos deixados por esse período.
Uma memória que continua no presente
A importância da data não está apenas em lembrar o que aconteceu no século XVIII. Para a UNESCO, conhecer a história do tráfico e da escravidão ajuda a compreender desigualdades, formas de discriminação e os efeitos deixados por esse passado em diferentes sociedades.
A organização também destaca a necessidade de preservar arquivos, lugares de memória e outras evidências relacionadas às experiências das populações escravizadas. Em 2024, por exemplo, a UNESCO lançou uma rede internacional de lugares históricos ligados à escravidão e ao tráfico, incluindo o Bois Caïman, no Haiti, espaço associado à revolta de 1791.
Assim, o 23 de agosto não é apenas uma data sobre o passado. É também um convite para lembrar as pessoas que sofreram com a escravidão, reconhecer aqueles que resistiram e entender como essa história continua influenciando o mundo atual.


