Poucas sobremesas têm presença tão constante no cotidiano brasileiro quanto o sorvete. Em uma casquinha, em um pote ou servido como gelato, ele atravessou gerações e se transformou também em um mercado de bilhões de reais.
Nesta quarta-feira (23), o Brasil celebra o Dia Nacional do Sorvete, criado pela Associação Brasileira das Indústrias e do Setor de Sorvetes (ABIS) em 2002. A data foi pensada para ampliar a visibilidade do produto, estimular seu consumo ao longo do ano e marcar a chegada das estações mais quentes.
Existe, porém, uma curiosidade na história da comemoração: o Dia Nacional do Sorvete ainda não foi instituído por uma lei federal. Um projeto apresentado no Senado em 2025 propõe justamente oficializar a data de 23 de setembro no calendário nacional. A proposta continua em tramitação.
Um mercado que passa dos R$ 15 bilhões
A comemoração também chama atenção para o tamanho da cadeia produtiva. Em uma retrospectiva publicada em janeiro de 2026, a ABIS informou que o mercado brasileiro de sorvetes reúne aproximadamente 11 mil empresas e movimenta mais de R$ 15 bilhões por ano. Cerca de 92% dos negócios são micro e pequenas empresas.
A página de dados de mercado da entidade registra ainda cerca de 100 mil empregos diretos e 200 mil indiretos no setor. O consumo se distribui de maneira desigual pelo país: o Sudeste responde por 52%, o Nordeste por 19%, o Sul por 15%, o Centro-Oeste por 9% e o Norte por 5%.
Nos dados disponíveis até 2022, o consumo per capita brasileiro chegou a 4,99 litros por pessoa ao ano. A quantidade varia ao longo do período analisado e permanece abaixo dos níveis registrados em alguns outros mercados internacionais.
Quando o sorvete chegou ao Brasil?
A história brasileira da sobremesa começa no século XIX. Em 1834, o Rio de Janeiro recebeu uma grande carga de gelo importado dos Estados Unidos, utilizada pelos comerciantes locais para preparar sorvetes com frutas brasileiras. Como ainda não existiam meios adequados de refrigeração para conservar o produto pronto, a venda era organizada de forma que o consumidor tomasse o sorvete logo após o preparo.
A novidade rapidamente ganhou espaço e incorporou ingredientes locais, entre eles frutas como manga, caju, pitanga e jabuticaba. O sorvete deixava de ser apenas uma novidade importada e começava a adquirir características próprias no país.
A produção em escala industrial demoraria mais algumas décadas. Segundo fontes do setor, a industrialização brasileira começou em 1941, com a instalação da primeira indústria dedicada à fabricação de sorvetes em escala industrial.
Uma história muito mais antiga
As preparações geladas que deram origem ao sorvete são muito anteriores às sorveterias modernas. Povos de diferentes regiões utilizaram neve e gelo para resfriar bebidas e alimentos, e receitas com frutas, açúcar e gelo foram sendo modificadas ao longo dos séculos.
Não existe consenso sobre uma única pessoa responsável pela invenção do sorvete. Histórias que atribuem a Marco Polo a introdução da sobremesa na Europa são populares, mas devem ser vistas com cautela, porque a evolução do alimento ocorreu gradualmente e envolveu diferentes culturas e técnicas.
A transformação do sorvete também acompanhou o avanço da tecnologia. O uso de gelo natural deu lugar aos equipamentos de refrigeração, que permitiram ampliar a produção, armazenar o produto e levar a sobremesa para muito além dos períodos mais quentes.
Hoje, o setor reúne sorvetes de massa, picolés, gelatos artesanais, sorbets, paletas e outras variedades. A própria diversidade do mercado mostra como uma sobremesa que chegou ao Brasil no século XIX acabou se transformando em uma cadeia econômica com milhares de empresas e centenas de milhares de postos de trabalho diretos e indiretos.
Assim, o 23 de setembro não conta apenas a história de uma sobremesa. A data também revela como uma iniciativa criada pelo próprio setor em 2002 se consolidou no calendário cultural brasileiro e, mais de duas décadas depois, ainda é objeto de uma proposta para ganhar reconhecimento oficial por lei.


