O 14 de setembro é celebrado no Brasil como o Dia Nacional do Frevo, manifestação cultural que nasceu nas ruas do Recife e se tornou um dos principais símbolos de Pernambuco. A data foi instituída por decreto presidencial em 13 de janeiro de 2009 e escolhida em homenagem ao jornalista Osvaldo da Silva Almeida, nascido em 14 de setembro de 1882 e ligado à divulgação do termo “frevo” na imprensa pernambucana.
Mas a história do frevo é bem mais antiga do que o nome que conhecemos hoje. O ritmo começou a se formar no Recife entre o final do século XIX e o início do século XX, em um período de intensas mudanças sociais e urbanas. Nas ruas, bandas militares e fanfarras se encontravam com as camadas populares, enquanto capoeiristas acompanhavam os cortejos e criavam movimentos que dariam origem ao passo, a dança característica do frevo.
Das ruas do Recife para a história
O frevo nasceu como uma manifestação urbana e popular. Sua música recebeu influência de gêneros que circulavam na época, enquanto a dança incorporou a agilidade e os movimentos dos capoeiristas. A disputa entre bandas, a ocupação das ruas e a criatividade dos brincantes ajudaram a formar uma expressão cultural marcada pela velocidade, pelos metais e pela energia dos passistas.
Até o próprio nome guarda essa história. “Frevo” é associado à transformação popular do verbo ferver, em referência à agitação das ruas e à maneira como os foliões se movimentavam ao som das orquestras.
Durante muito tempo, acreditou-se que a primeira referência impressa à palavra tivesse ocorrido em 9 de fevereiro de 1907, em uma publicação do Jornal Pequeno relacionada ao Clube Empalhadores do Feitosa. Por isso, o 9 de fevereiro passou a ser celebrado como Dia do Frevo em Pernambuco.
A história ficou mais interessante em 2015, quando o pesquisador Luiz Henrique Santos encontrou no Diario de Pernambuco um registro de 11 de janeiro de 1906 que já mencionava uma marcha chamada “O frêvo”, no repertório da troça Tome Farofa. O achado antecipou em mais de um ano a referência até então considerada mais antiga. Pesquisadores, porém, fazem uma ressalva: aquele registro pode estar relacionado ao nome de uma marcha, e não necessariamente ao gênero musical já consolidado como frevo.
Capoeira, sombrinha e o passo
A dança é uma das marcas mais fortes do frevo. O passo tem influência direta da capoeira e surgiu em meio à presença de capoeiristas nos cortejos de bandas e agremiações carnavalescas. Os movimentos rápidos, saltos e flexões transformaram antigos gestos de luta em uma linguagem corporal própria das ruas.
A sombrinha, hoje inseparável da imagem do passista, também passou a integrar essa coreografia ao longo do desenvolvimento da manifestação. O objeto se tornou um elemento visual e funcional do passo e acabou transformado em um dos símbolos mais reconhecidos do frevo.
A música, por sua vez, é tradicionalmente executada por orquestras e bandas de metais e inclui instrumentos como trompetes, trombones, tubas e saxofones. Dessa combinação entre som acelerado, dança e ocupação das ruas surgiram diferentes formas de frevo, principalmente o frevo de rua, o frevo de bloco e o frevo-canção.
Do carnaval pernambucano ao patrimônio mundial
O frevo ultrapassou as ruas e o período carnavalesco sem perder sua ligação com as comunidades que o criaram e transformaram. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) reconheceu a manifestação como patrimônio cultural brasileiro, e em 2012 a Unesco incluiu o Frevo, artes performáticas do Carnaval do Recife, na Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.
Hoje, o frevo continua sendo música, dança, memória e identidade. O reconhecimento internacional não congelou a manifestação no passado. Ao contrário, a própria Unesco destaca que ela continua sendo recriada pelas comunidades que mantêm vivas suas músicas, seus passos, suas agremiações e suas formas de celebração.
É por isso que o 14 de setembro não é apenas uma data no calendário. É uma oportunidade de lembrar que o frevo nasceu das ruas, foi construído por gente comum e atravessou gerações sem perder o movimento. Em Pernambuco, até a história dança.


