O palco brasileiro já foi instrumento de catequese, espaço para comédias de costumes, laboratório de novas linguagens e também lugar de resistência em períodos de censura. Essa trajetória ajuda a entender por que o teatro ganhou um espaço próprio no calendário cultural do país. Em 19 de setembro, é celebrado o Dia Nacional do Teatro.
A origem exata da escolha da data, porém, não aparece claramente registrada em um ato federal nas fontes oficiais consultadas. O que se sabe é que o 19 de setembro já era tradicionalmente celebrado como Dia Nacional do Teatro antes de ganhar, em 2017, uma segunda referência oficial: o Dia Nacional do Teatro Acessível.
Dos autos jesuítas aos primeiros palcos
As primeiras manifestações teatrais documentadas em território brasileiro remontam ao século XVI, durante o período colonial. Os jesuítas utilizavam encenações como recurso pedagógico e religioso, especialmente na catequese. Entre os principais nomes dessa fase está José de Anchieta. O Arquivo Nacional cita o Auto de Santiago, de 1564, como a primeira peça apresentada no Brasil.
Durante os séculos seguintes, a atividade teatral foi se transformando. Um novo impulso ocorreu com a chegada da corte portuguesa ao Rio de Janeiro, em 1808, quando a vida cultural da cidade ganhou novas estruturas e maior presença de companhias estrangeiras.
Um dos principais marcos desse período foi o Real Theatro de São João, inaugurado no Rio de Janeiro em 1813. A casa foi criada durante o governo de Dom João VI e passou a integrar a vida cultural da capital.
Nasce uma cena brasileira
O século XIX marcou o avanço de uma produção teatral cada vez mais nacional. Em 1833, o ator e empresário João Caetano fundou sua própria companhia, considerada uma das primeiras companhias dramáticas nacionais.
Poucos anos depois, em 1838, o teatro brasileiro ganhou dois títulos importantes. Antônio José, ou O Poeta e a Inquisição, de Gonçalves de Magalhães, é apontada como a primeira tragédia escrita por um brasileiro, enquanto O Juiz de Paz na Roça, de Martins Pena, ajudou a consolidar a comédia de costumes, gênero que se tornaria uma das marcas da dramaturgia nacional.
Martins Pena passou a colocar nos palcos personagens e situações do cotidiano brasileiro, usando o humor para observar costumes e relações sociais de seu tempo. A comédia de costumes também seria desenvolvida posteriormente por autores como Arthur Azevedo.
O teatro se moderniza
No século XX, novas companhias e escolas ajudaram a profissionalizar e renovar a cena brasileira. Em 1938, Paschoal Carlos Magno liderou o Teatro do Estudante do Brasil, cujo primeiro espetáculo, Romeu e Julieta, estreou naquele ano no Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro.
Em 1948, foi inaugurado o Teatro Brasileiro de Comédia, o TBC, criado por Franco Zampari. A companhia adotou uma estrutura profissional e reuniu alguns dos principais artistas brasileiros de sua época.
Outra transformação veio com o Teatro de Arena. A companhia iniciou suas atividades em 1953, e a sala da Rua Theodoro Baima foi inaugurada em 1955. O espaço se tornaria importante para a dramaturgia brasileira e para experiências que aproximavam atores e público.
Entre censura e reinvenção
A história do teatro brasileiro também foi marcada pela censura. Durante o Estado Novo, entre 1937 e 1945, manifestações culturais estiveram submetidas ao controle estatal. Mais tarde, a ditadura militar instaurada em 1964 voltou a atingir diretamente a produção artística, incluindo peças teatrais.
Um dos episódios mais conhecidos dessa transformação ocorreu com O Rei da Vela. Escrita por Oswald de Andrade em 1933 e publicada em 1937, a peça só foi encenada pela primeira vez em 1967, pelo Teatro Oficina, sob direção de José Celso Martinez Corrêa. A montagem se tornou um marco da renovação da linguagem teatral brasileira em plena ditadura militar.
Uma data que também fala de inclusão
Em 2017, o 19 de setembro ganhou uma referência oficial específica com a sanção da Lei nº 13.442. A norma instituiu o Dia Nacional do Teatro Acessível: Arte, Prazer e Direitos, destinado a divulgar atividades cênicas que utilizem recursos de acessibilidade física e comunicativa para pessoas com deficiência.
A iniciativa surgiu a partir da campanha “Teatro Acessível: Arte, Prazer e Direitos”, lançada pela Escola de Gente em 2011. Durante a tramitação do projeto, os autores destacaram a importância de ampliar a participação de pessoas com deficiência na vida cultural.
Assim, 19 de setembro acabou reunindo duas dimensões da mesma celebração: a memória de uma arte que atravessou diferentes fases da história brasileira e a busca por um teatro que possa ser vivido por um público cada vez maior.
E o calendário ainda guarda outras duas datas importantes. Em 20 de março é celebrado o Dia Nacional do Teatro para a Infância e Juventude, instituído pela Lei nº 11.722/2008. Já em 27 de março acontece o Dia Mundial do Teatro, criado em 1961 pelo Instituto Internacional do Teatro e celebrado internacionalmente desde 1962.


